Apontamentos de um soldado em África - autor: Víctor Sierra

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Apontamentos de um soldado em África - autor: Víctor Sierra

Mensagem por Pirada em Seg 11 Mar 2013, 7:43 am

in: http://ultramar.terraweb.biz/06livros_VictorSierra.htm
Apontamentos de um Soldado em África:
1 - «BArt400 - noroeste de Angola, Dez62-Fev65»
2 - «CArt2628 - noroeste de Moçambique, Nov69 - Nov71»
3 - «BCav8323 - nordeste da Guiné, Jun a Set74»
autor: Víctor Sierra

Com a devida vénia, transcreve-se o texto, cujo título é "Em jeito de 'Posfácio'" (pág. 32) do n.º 3: «BCav8323 - nordeste da Guiné, Jun a Set74»


Em jeito de "POSFÁCIO"

“Para trás a saudade… Que futuro?!...”

Desta saudade e desta dúvida que enquadravam o meu espírito, ao escrever a última crónica dos meus “Apontamentos” - naquele mês de Dezembro de há quarenta e seis anos -, apenas persiste, agora, a primeira – a “Saudade”.

Saudade de um tempo que já está para “o outro lado do Tempo”… De um tempo que os, então, tão apregoados “ventos da história” engoliram, numa desastrosa turbulência que não deixou “pedra sobre pedra” sobre os feitos maiores de um Povo em séculos de construção. Que futuro?!...

Depois de Angola, nova missão em Moçambique, e, mais tarde, outra na Guiné, terras onde respirei o mesmo ar de um Portugal multirracial, multicultural e pluricontinental. Hoje já não existe a dúvida sobre o “futuro”, esse futuro que desabou como um “tsunami” sobre esta Pátria de heróis e de santos, numa pretensamente radiosa manhã primaveril de Abril.

Que futuro?!... Recordo, por exemplo, da Guiné, aquela cena, já na descolonização, de um chefe de tabanca (aldeia) agarrado à sua bandeira verde rubra, que religiosamente guardava entre os seus pertences, a dizer que não se desfaria dela, mesmo com o perigo de o “PAIGC” a encontrar consigo e, por via disso, ver a sua vida ameaçada (coisas destas, testemunhou Almeida Santos, publicamente, a respeito do tão martirizado povo de Timor).

E foi também com a alma perpassada pela negrura da tristeza que assisti, em Bissau, ao último arriar da Bandeira Portuguesa, na fortaleza da Amura, horas antes de entrarmos para as lanchas de desembarque (LDG) que nos haveriam de transportar ao encontro do navio Niassa, no alto-mar, nessa derradeira noite da presença portuguesa na terra que Nuno Tristão descobriu, e regou com o seu sangue, em Junho de 1446.

Que futuro?!... O Futuro projecta-se em ideais… Mas, a História escreve-se com factos: com heroicidades, mas também com traições...; com exaltações de honra, mas também com ignomínias de cobardia.

E hoje os factos aí estão.

As dúvidas de ontem estão desfeitas com a realidade do presente.

Não soubemos ou não pudemos terminar com êxito o ciclo da nossa História… Nem honrar aqueles que se sacrificaram e deram a vida, para construir essa História, ao longo de séculos de gerações, e à face do planeta. Já não há “Futuro”; apenas resta, aqui e em toda a parte por onde esta Pátria passou, a nostálgica Saudade…

Saudade do Povo português e de uma Pátria que se chamou Portugal!

V. N. dos Santos
Portugal - Junho de 2010

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